Os livros, livrarias e bibliotecas sempre foram, para mim, uma boa companhia. Gosto de fazer descobertas nestes ambientes de leitura. Recentemente tive oportunidade de contactar com revistas antigas Ornitocultura e Zoocultura publicadas pelo Sr. David Gomes. Penso que não haverá nenhum problema em transcrever um artigo, mas de uma actualidade arrepiante, sobre pintassilgos.
Todos os anos, a partir de Junho - Julho tenho lido alguns artigos cujos autores, muito justamente se alarmam, com a caça (leia-se «destruição») de que é vítima o Pintassilgo. Num breve parêntesis presto aqui a minha homenagem a «ORNITOCULTURA» por, em anos transactos ter dado guarida a opiniões de quem sabe, vê e sente o problema.
Infelizmente, constato que os gritos de a1arme de ecologistas,ornitólogos e amadores conscientes não são suficientes para a modificação deste estado de coisas: Os caçadores predadores que já quase dizimaram os pintassilgos no Norte vão, agora; na mira do lucro ou movidos por simples instinto de destruição a caminho do Sul pois, ao que parece no Ribatejo, Alentejo e Algarve «ainda vale a pena».
E quando acabar o Pintasilgo teremos (ou já temos?) o D. Fafe, o Pintarrocho e até o recem chegado Bico de Lacre, pobre turista, recebido a «golpes» de rede e «depenado» de pronto, não vá ele habituar-se às doçuras do clima e aos nossos brandos costumes.
O problema tem sido enunciado muitas vezes, poucas equacionado e nunca resolvido. Qual será então a solução? Promulga-se uma lei, que proiba isto e aquilo que não está bem? Talvez ajudasse, mas quem faz cumprir a lei? Na França, Alemanha ou Inglaterra há leis que regulam estas situações mas, nesses países as leis cumprem-se; aqui em Portugal... é o que se sabe. Claro que a minha intenção não é propor uma solução definitiva até Porque não a tenho mas isso não nos impede de, por um raciocínio linear ,.'concruir ,fJue ao passa;rínho caçado é atribuído um valor real bem pequenino (o da panela) e um valor venal às vezes nada pequeno ( o da venda ao amador de aves). É claro que o passarinho em liberdade tem um valor «natural», ecológico bem maior.
Chegados aqui sinto-me interrompido por um dos meus leitores: «Pois claro! Nós, os amadores é que temos as costas largas, olha se não havíamos de ser os culpados!.. Ele há cada moralista!...»
Não, amigos,sou um amador que me dedico às aves há uns bons trinta anos, com alguns gastos, nenhuns lucros mas com um entusiasmo cada vez maior. E eu, amador, me confesso que também pequei muitas vezes...
Há vinte ou trinta anos éramos poucos os amadores muitos os Pintassilgos, o pecado era pequeno. Com qualquer moeda de prata se comprava o «chibéuzito» (bons tempos esses em que circulavam moedas de prata !...) quando não era o amigo que oferecia um dos apanhados no quintal. Hoje as coisas já não são assim: os aficciona,dos são muitos e os Pintassilgos poucos.
Resumindo: O caminho do futuro s6 pode ser um; criar em cativeiro Pintassilgos, D. Fafes, Verdelhões, etc.
«O tipo é poeta!» - dirá o meu leitor de há pouco. Não, amigo,apenas professor o que, vamos lá, em termos de proventos se não é bem a mesma coisa serão, pelo menos actividades afins. Pois é, acredito ser este o desafio que o amador deve aceitar e até vou mais longe, que terá mesmo de aceitar mais tarde ou mais cedo.
O meu leitor é que não desarma e volta à carga: «Que é isso, ó parceiro? Você quer vender qualquer coisa à gente ou então está taradinho!... Vamos então engaiolar os Pintassilgos e criá-los em casa, para acabar mais depressa com eles? Você garante: que eles criam?»
Claro que não garanto coisa nenhuma mas lá que tenho os meus argumentos, tenho. Além do vício dos pássaros tenho o dos livros e, mais do que comprá-los, gosto de os ler. Não só livros que tratem de pássaros, evidentemente, esses são os dos tempos livres. E assim, aproveitei um dos meus primeiros dias de férias da Páscoa para uma das minhas habituais rondas pelas livrarias do centro do Porto. As novidades em termos de literatura ornitológica são raras mas os preços, amigos, aquilo que há anos se comprava a preço de «chibéu» custa-nos hoje quase tanto como um «galador»! Mas, desta vez, a novidade lá estava: um livro cujo autor dá pelo.nome de Richard Mark Martin, publicado inicialmente em inglês em 1980 - 81, traduzido para o francês e publicado em fins de 82 com o título «Oiseaux de Cage et de Voliéde», Ed. Bordas, impresso na Bélgica.
O livrinho não explica a técnica mas dá a notícia: O Pintassilgo, o Verdelhão, o Pintarroxo, o D. Fafe e outros são criados em cativeiro, regularmente e há vários anos em Inglaterra. E lá vem também referida a obtenção frequente de híbridos tais como: PintassilgoxD. Fafe, (ao que parece um dos mais apreciados pelos ingleses), CanárioxD.Fafe e Pintarrocho x D. Fafe. Mas a grande novidade foi, para mim uma que diz respeito ao Verdelhão: Os Ingleses já conseguiram mutações de Verdelhões Albinos e Lutinos.
Veja, leitor amigo, como sempre, partimos atrasados. Nós, os Portugueses somos assim: na única vez que nos adiantamos descobrimos o Mundo e parece que, desde então, só descobrimos que não precisávamos de descobrir mais nada.
Há meses li em «Ornitocultura» um artigo que muito apreciei e em que um colega amador (se ele, por caso, me ler digo-lhe que me sentirei muito honrado se permitir que o trate por colega) descrevia como conseguiu criar Diamantes de Gould. Como eu gostaria de ler um trabalho intitulado «Como consegui criar Pintassilgos ou D. Fafes em cativeiro»!
Mas aquele cidadão que me vem interrompendo, está na dele: «Ouça cá, patrãozinho, que me interessa a mim estar a perder tempo e feitio a criar «chibéus» se a Rua da Madeira me fica mesmo à mão? T'á c'os copos ou quê?»
Dedicado a este amigo português até à medula dos ossos, lusitano da mais pura água, do género que eu mais aprecio por ser homem com os pés bem assentes na terra, daqueles que não correm atrás de quimeras, informo de mais outra que vem no tal livrinho que me custou os olhos da cara. Diz respeito ao (Pintassilgo) e reza assim: Na Grã-Bretanha ele (o Pi!ntassilgo), está domesticado. O macho «,Don Juan» dos pássaros tem tendênci,a a seduzir as fêmeas de todas as espécies que se encontram na passareira».
E agora é a minha vez de perguntar, muito terra a terra, ao meu leitor refilão: «Diga lá, ó chefe, quanto é que você daria por um «galadorzinho» destes?»
É que, além do valor real e valor venal já ouvi falar (parece que a uns senhores políticos que vão muitas vezes à Televisão) em «valor acrescentado». Terá alguma coisa a ver com isto? Se imaginarmos a expressão despida do seu significado técnico que lhe esteja por ventura associado e a tomarmos assim, purinha, tal como o povo a pariu, acho que é isso mesmo. Quero dizer cá na. minha que o tra,balho do verdadeiro ama,dor deve ter por fim, não destruir, mas valorizar aquilo que temos.
Senhora da Hora, 24 de Março de 1983.
Foi publicado em 1983 na Ornitocultura como não tenho a capa desconheço o numero. Na pagina 1 rubrica "Um Tema Um Desafio", o autor é o Dr Manuel Duarte.
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