Em Junho no ano passado, tomei conhecimento que um colega meu também criou pintassilgos. Colocou um casal numa barrica de plástico, com uma janela em rede, que lhe permitia o acesso e entrada da luz e ar ao interior. O seu comentário comigo foi eu também crio pintassilgos. Fiquei contente porque para mim o importante é cultivar a criação domestica desta espécie e incentivar o desinteresse pelas capturas.
Apanhar ou arranjar um casal e eles criarem logo como os canários achei pouco vulgar. Não é impossível, mas na minha opinião é pouco provável. As razões para mim são óbvias. A fêmea tem de estar aclimatada. Tolerar a presença do criador, aceitar a alimentação comercial, (papa de ovo, bicho da farinha). Isto só se consegue com pássaros amansados ou nascidos em cativeiro e pelo que eu entendi não era o caso.
O tema criação de pintassilgos agora é moda. Já tinha esquecido o episódio relatado quando em conversa soube do resto da história. O dito casal de pintassilgos era composto por uma fêmea engaiolada a 4 anos e um macho recente. A minha duvida finalmente ficou esclarecida depois de descobrir o resto da meia verdade.
Não é segredo que ainda se continua a traficar pintassilgos e outras aves capturadas na feira que se realiza aos domingos de manhã num local da cidade do Porto. A cotação de um pintassilgo macho é de sete euros e meio. São baratos e muito frágeis, infelizmente... Concordam comigo? Se sim estão enganados. A minha afirmação é mais uma meia verdade. Para mim essas aves são caras porque estão debilitadas e para safar uma temos de comprar meia dúzia. Fazendo contas gastamos quarenta e cinco euros em 6 para ficar com 1. A compra de aves capturadas incentiva uma actividade que prejudica a imagem do aficionado criador de pintassilgos. Um pintassilgo criado em ambiente domestico tem outro potencial. Esta habituado a comida comercial, tolera a presença do Homem, cria com mais facilidade. O valor de um pintassilgo domestico não pode ser igual ao praticado nas feiras ou nos passarinheiros. O aspecto ancestral é igual em ambos. Pois, mas isto é outra meia verdade, o da feira é adquirido em bruto e o outro proveniente do criador já vem trabalhado.
Em Portugal ainda não esta establecida uma cultura centrada na criação domestica de pintassilgos parva. Antes de eu obter criação de pintassilgos Parva em ambiente domestico, já colegas o tinham conseguido e mais tarde abandonado. As razões são a proibição de deter este tipo de ave e ser possível arranjar aves de captura, e a criação de canários ser mais interessante. Pela vertente desportiva, não ser possível obter canários capturados iguais aos domésticos. Agora esse colega quis retomar a criação de pintassilgos de uma maneira económica. Trocou alguns dos seus canários por 6 pintassilgos apanhados. Lamentou-se que acabados de chegar começou a notar um embolado pegou nesse e deitou-o a vida e os outros para não os ver definhar fez o mesmo. O custo económico, ambiental, emocional desta pratica de tentar lapidar em bruto pintassilgos é muito elevado. Não é fácil manter um plantel domestico de pintassilgos Parva estável, pois é sempre necessário introduzir sangue novo de vez em quando. Procurar sempre adquirir aves devidamente anilhadas e de preferência a outros criadores. Este procedimento permite filtrar a introdução de indivíduos com factores negativos e regredir nos nossos objectivos de manter uma linhagem homogénea e fértil.
Deveria ser permitido legalmente criar pintassilgos Parva em ambiente domestico. Só com um controlo e registo de nascimentos seria possível garantir a diferença da origem e proveniência do pintassilgo mantido em ambiente domestico. Ainda existem muitas meias verdades sobre a facilidade ou dificuldade de reprodução do pintassilgo Prava em ambiente domestico. Para mim a principal diferença é o potencial de cada indivíduo a adaptação ao ambiente domestico. Nem todos os pintassilgos servem para a reprodução, isto devido ao seu carácter silvestre.
Já passaram alguns meses desde a altura em que eu iniciei esta crónica. A 5 de Janeiro de 2010 saiu a esperada Portaria que Regulamenta a detenção e criação de aves indígenas, vulgarmente conhecidas aves da fauna europeia. Nesta regulamentação foram esquecidos os pequenos criadores amadores com 1 ou 2 casais. As condições e taxas pedidas para cumprir a lei e a falta de informação objectiva afastam muitos destes processo. Os preços das aves importadas não esta ao alcance da maioria do povo. Enfim ter pintassilgos legais é só para quem pode ou pretende fazer comercio. Mesmo fazendo comercio ou seja quiser transaccionar legalmente aves, vai ter de informar anualmente o ICNB, para onde (morte ou fuga) ou para quem cedeu as aves. Claro que eu ao comprar um casal português legal o meu nome vai constar nos registos do ICNB. Isso implica que o ICNB vai saber quem compra as aves se esta registado ou não como criador. Agora fazendo contas compro um casal de pintassilgos ancestrais dou 300 euros, depois inscrevo-me como criador no ICNB 125 euros, mais registo o casal 50 euros, e todos os anos tenho de actualizar os registos (mortes, nascimentos, fugas e cedências) . Só para estar descansado desembolso 475 euros só para começar o meu plantel. Agora se contabilizarmos os trocos: cotas do clube, anilhas, comida, gaiola e acessórios, ficamos com uma ideia que não é para todas as carteiras. Infelizmente e mais uma vez a lei criou um fosso entre ricos e pobres, destinando a legalização para os ricos e a clandestinidade para os pobres. Aos arremediados cabe a difícil tarefa de optar se vale a pena ou se podem ser ricos.
Esta é a meia verdade que faltava, será que a Regulamentação publicada em 5 de Janeiro de 2010, vai contribuir para a protecção e conservação das aves da nossa fauna autóctona? No meu entender vai complicar a vida aos criadores desportivos, porque vai onerar a criação de variedades domesticas vulgo mutações, tornando as aves mais caras com taxas e burocracias. O medo das inspecções as papeladas e burocracias afastam os aficionados do regime de legalização, mesmo tendo aves mutadas diferentes das selvagens. Infelizmente nos clubes ornitológicos desportivos que eu conheço a informação sobre este assunto é escassa para não dizer nula. È pena pois já foi dado um passo de gigante com a publicação da Portaria, mas se calhar foi um passo demasiado largo para a realidade Portuguesa. A regulamentação tem de ser revista para incluir mais aficionados menos endinheirados, pois a grande maioria de detentores de pintassilgos são pessoas do Povo, geralmente aficionados pelo canto destas aves esses não fazem parte dos clubes ornitológicos, mas isto seria tema para outra crónica...
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